Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

2.12.06





"Capítulo 1"

Publicado em 06 de Março no "Dios Mio!" por Jayme Freire, Vitória - ES

- Seu sofá não tem braços - disse Antônio

- Isso é porque não é um sofá - respondeu o homem a sua frente - é um divã.

- Hmmm... o divã...

- É.

- Igual o ex-zagueiro do Vasco?

- Você gosta de futebol? - perguntou o homem pronto para fazer anotações.

- Não, mas o Peu gosta.

- Quem é "Peu"? - perguntou novamente, desta vez escrevendo algo aparentemente ilegível para qualquer ser humano.

- Meu louva-deus.

Num claro sinal de surpresa o homem parou de escrever, descruzou as pernas, olhou para Antônio ali, sentado no divã (e não no Odvan), voltou a cruzar as pernas, mordeu a tampa da caneta, descruzou as pernas e as cruzou novamente. Desde pequeno considerava o "cruzar de pernas" o ato mais interessante que já pudera presenciar, talvez culpa de seus pais, que eram tremendos fãs de "Instinto Selvagem". Mas, como se isso não importasse a ninguém (e de fato não importa), Antônio voltou a falar:

- Sim, eu tenho um louva-deus. Inteligente à beça, se quer saber.

- Você tem um louva-deus de estimação?

- Não foi o que eu acabei de dizer?

- Conte-me sobre ele, então. Como é o...

- Peu - completou Antônio. - Ele é um tanto temperamental, pra falar a verdade. Não consegue admitir que perde uma partida de xadrez, vez ou outra. É esquerdista fervoroso e não admite que aos louva-deus o voto ainda não seja permitido. É ateu também. Disse que o dia em que eu provar a existência de Deus ele vira apóstolo, e que só não prova que não existe por querer poupar minha mente de revelações tão grandiosas...

- Certo. Agora, me diga...

- Mas eu disse a ele que é bem provável que exista. Tudo bem, sei que a igreja católica anda fodendo com todo mundo ultimamente, principalmente com a parcela da humanidade que possui menos de 10 anos de idade, mas isso não desmente nada... Sabe, às vezes desconfio que ele se diz ateu só para contradizer seu pai. Ele é rígido à beça, disse que nenhum filho louva-deus dele seria ateu... e...

- Tudo bem, tudo bem. - apressou-se a interromper o psicanalista - Antônio, eu queria saber qual é a sua relação com as pessoas.

- Depende, com que pessoas? Se for contigo eu diria que é muito cedo pra dizer. Só te conheço há alguns minutos...

- Com todos à sua volta. Como você se relaciona com as pessoas de verdade?

- Não muito bem... existem alguns problemas, pra falar a verdade.

- Problemas com você?

- Não, eu sou normal. São as pessoas que são abertas demais, contentes demais. Elas não me entendem.

- E você as entende?

- Não acabei de dizer qual o problema delas? Claro que entendo...

- Certo...

- Sabe, doutor... acho que você precisa de um pouco de atenção médica. Já procurou um psiquiatra?








"Capítulo 1 - Final"

Publicado em 23 de Abril no "Dios Mio!" por Jayme Freire, Vitória - ES

Antônio e Paula viveram crises de ciúme. E passaram por elas. Depois disso viveram um romance. Apenas para voltarem a viver crises de ciúme. E passarem por elas novamente.

Passaram mais seis meses juntos. Conheceram-se, mudaram, transmutaram e transformaram. Paula quebrou o Santo Graal de Jonas e Antônio flagrou André em ocasiões embaraçosas.

Perceberam que eram dois despedaçados, e quando todos os pedaços dos dois, sem faltar nenhum, se ajeitaram num mesmo espaço, e as duas bocas, enquanto separadas, murmuraram bobagens importantíssimas, e os dois pensamentos conheceram juntos lugares que não existem. Paula voltou a perguntar se Antônio temia a morte, e ele voltou a dizer que não. Ela voltou a perguntar o que ele vestia, e ele sempre respondia "jeans e camiseta". E ele apaixonava-se todos os dias, pela manhã, quando acordava e ela estava ao seu lado... babando, é claro. Já conheciam cada ruga, cada pinta, cada dobra e cada fio encravado.

Porém, no ponto culminante de tal paixão, Paula planejou uma mudança. Resolveu estudar em outra cidade, bem longe daquela em que a paixão vivia. E quando contou a Antônio sua decisão, ele sugeriu que continuassem a visitar lugares inexistentes, mesmo à distância.

- É, se fosse fácil assim... - disse ela - pra mim...

- Não sei por que se é - respondeu ele - assim.

- Mas é... Mas é...

Sabiam que o conquistado se dissolveria. Sabiam que duas realidades numa só não resistiria a milhares de quilômetros. Por isso a separaram. Como se corta uma folha de papel ao meio. E até hoje Antônio jura ter sido esse o som que ouviu quando Paula entrou no carro. Papel sendo rasgado.

E o que era um amontoado de pedaços juntos, voltou a se desmontar. Antônio voltou a formar suas teorias nefastas sobre a humanidade e a se afastar de tudo o que era vivo e vivia. Sabia que havia muita diferença entre ser vivo e viver. E fazia questão de traçar uma linha entre ambos os atos. Mas quando perguntavam por que ele vivia assim (ou apenas era vivo assim), ele não respondia. Mas dizia a si mesmo: "distância."








"O Ministério da Saúde adverte: não existem evidências de que este blog previna, trate ou cure doenças."

Publicado em 19 de Novembro no "Circulando" por Cláudio Rúbio, São Paulo -SP























"Pra viajar no cosmos não precisa gasolina"

Publicado em 05 de Abril no "Pensar Enlouquece, Pense Nisso" por Alexandre Inagaki, São Paulo -SP



Marcos César Pontes, 46 anos, tornou-se o primeiro brasileiro a viajar literalmente para o espaço. Ao participar da tripulação que lançou a nave russa Soyuz TMA-8 ao espaço, fez do Brasil o 35º país a colocar um astronauta em órbita. Para que essa viagem ocorresse, o governo brasileiro pagou cerca de US$ 10 milhões aos russos, que gentilmente cederam um assento a Marcos na Soyuz por um precinho camarada (a título de comparação: o milionário Dennis Tito desembolsou US$ 20 milhões por sua viagem espacial, realizada em 2001), movidos por interesses comerciais que incluem a venda, ao Brasil, da tecnologia utilizada em motores de foguetes capazes de lançar satélites.

Não discuto a necessidade dessa aquisição tecnológica, uma vez que o programa espacial brasileiro é, literalmente, um desastre (vide o acidente na Base de Alcântara no Maranhão que causou 21 mortes em 2003). Defeito colateral, no mais, gestado por anos de descaso com pesquisas científicas e tecnológicas, que fizeram com que nações que começaram seus programas espaciais na mesma época que o Brasil, como a Índia e a China, sejam atualmente capazes de produzir e lançar seus próprios foguetes e satélites (e de enviar homens ao espaço por conta própria, no caso dos chineses), enquanto ainda somos obrigados a recorrer a tecnologias de terceiros e alugar um assento numa nave espacial russa a fim de disfarçar o fracasso acachapante de um delírio intitulado "programa espacial tripulado brasileiro".

Em meio a toda essa barafunda, é até compreensível ver tanta gente ridicularizando Marcos Pontes por realizar no espaço experimentos como plantar sementes de feijão em algodão (atire o primeiro meteoro quem nunca fez isso na escola primária). No entanto, vale a pena lembrar que ele é um dos mais experientes pilotos da FAB e passou por treinamentos na NASA desde agosto de 1998. E se ficou tanto tempo assim em treinamento, impute-se a culpa ao governo brasileiro que, na condição de parceiro de realização da primeira Estação Espacial Internacional, assumiu (sem cumprir) o compromisso de construir diversas peças, sendo que em troca Pontes seria enviado ao espaço sem nenhum custo adicional. Como até agora o Brasil não desenvolveu o incremento tecnológico necessário para a construção dessas peças, Pontes ficou a ver as estrelas de periscópio até que nosso governo decidisse custear uma carona com os russos.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, observa: "a associação do envio do astronauta brasileiro com o vôo do 14 Bis vai colocar em evidência que o Brasil, em cem anos, sofreu um grande atraso. Naquela época, fomos os primeiros a controlar a dirigibilidade dos balões e a levantar vôo com um veículo mais pesado que o ar, graças à iniciativa de Santos Dumont. No presente, o governo gasta US$ 10 milhões para colocarmos um astronauta no espaço ¿ sendo que mais de 30 países já o fizeram ¿, usando lançadores de outros países".

Perguntar não ofende, respostas sim: vou me ufanar do quê?








"O bom, o mau... que feio!"

Publicado em 06 de Março no "Filmes do Chico" por Chico Fireman, Salvador BA



Há cerca de um mês, quando Crash foi eleito como pior filme do ano pela Liga dos Blogues Cinematográficos, eu me senti orgulhoso. Fiquei orgulhoso de, além de mim, a maior parte dos meus colegas terem percebido como o filme de Paul Haggis é um embuste. O Alfred de pior filme tinha desmascarado o texto ruim de um filme que se vendia pelo quão revelador ele era, que se erguia pela denúncia da intolerância étnica e pela indignação com relação ao jogo de poder que manipula a América e o mundo. Um filme que se vendia. E para vender seu filme, o diretor de Crash, o autor de Crash jogou o mais baixo que pode: quis determinar que ninguém escapa do destino de pecar, de ser mau, de se corromper. A corrupção (não a monetária e sim a moral) é questão de tempo. Paul Haggis provavelmente acredita no que escreveu talvez por ser o caso dele.

Os Estados Unidos são o país mais frágil do mundo. Haggis não teve grandes dificuldades de convencer este país de como sua história era importante. Cooptou astros diversos, de Matt Dillon a Brendan Fraser, de Don Cheadle a Sandra Bullock. Quando estreou, caiu nas graças da crítica, que enxergava no filme um exemplo corajoso de manifestação política. Este abraço a Crash somente ganhou força quando se descobriu que 2005 era um ano de contestação. Era um ano de projetos engajados, de ousadia, de posicionamento social. Um a um, caíram todos os grandes favoritos a filme do ano. Num ano em que George Clooney faz um maravilhoso libelo contra o macarthismo por que se importar com as memórias plastificadas de uma gueixa quase ocidental? Num ano em que Steven Spielberg acusa sua própria etnia de intolerância qual a relevância da história de Pocahontas? Num ano em que Ang Lee faz de um conto de amor entre dois homens uma história de amor universal seria preciso dezenas de macacos gigantes para chamarem mais atenção.



E foi este último, o tal do conto de amor, o filme que mais ousou. Ousou ao se aproveitar do que é mais formal para escrever a história mais bonita, o roteiro mais acertado, usar a câmera sem alarde. O Segredo de Brokeback Mountain ousou mostrar que não há diferenças. Foi tão bem sucedido que se pode achar dezenas de textos de homens que o defendem com paixão embora não façam a menor questão de viver ou ver algo semelhante ao que aparece na tela. Brokeback Mountain, como grande cinema que é, ultrapassou os limites da tela e cumpriu sua última função social na noite deste domingo, quando perdeu justamente para Crash o Oscar de melhor filme do ano. Foi este prêmio que escancarou o quanto ainda é insuportável ver dois homens se beijando mesmo num mundo tão moderno como o que vivemos. Na velharia que ainda domina a Academia, a corrida interior para eleger uma desculpa para não premiar o filme de Ang Lee terminou quando alguém decidiu que seria perfeito apontar o filme com maior "conteúdo social" como vencedor.

Um disfarce primoroso. Esconder a homofobia - e com ela a estupidez de um grupo que já deu prêmio a Uma Mente Brilhante - por trás de posicionamento político. Que grande golpe! É realmente inacreditável perceber que a Academia não tem o menor pudor de ir contra a corrente generalizada, de parecer antiga, arcaica e burra apenas para não aceitar que um filme com temática gay pudesse ser o melhor do ano. Se George Clooney ou Steven Spielberg, ainda que eu ache seus belos trabalhos inferiores ao de Ang Lee, tivessem ganho, este texto não existiria. Seriam dois filmes honestos e, estes sim, importantes e ousados, premiados. Mas ver a aberração de Crash ganhar de um filme tão honestamente simples e imensamente superior como O Segredo de Brokeback Mountain é ter certeza de como tudo ainda continua tão errado.

A festa

Jon Stewart é excelente. O melhor apresentador de todos os Oscars que eu vi. Os resultados foram, de uma maneira geral, bastante previsíveis. Mais do que nunca, eu diria. Foi ruim ver a fotografia esquizofrênica de Memórias de uma Gueixa vencer, mas foi bonito assistir à belíssima trilha de Brokeback Mountain ser premiada. Os prêmios de direção de arte e figurinos não eram suficientes? E mesmo que eu prefira David Strathairn e Heath Ledger, Philip Seymour Hoffman mereceu seu prêmio. O mesmo pode ser dito de Reese Whitterspoon, num ano fraco para atrizes. George Clooney estava muito bem em Syriana, e Rachel Weisz, encantadora, em O Jardineiro Fiel. Os pecados vieram quando a os homens-bomba da Palestina perderam o Oscar para as criancinhas sul-africanas ou a montagem e o roteiro de Crash foram eleitos. E Nárnia, com seu trabalho meia-boca tirar a maquiagem de Star Wars também foi ruim. King Kong ganhou todos os técnicos deixando Guerra dos Mundos, igualmente merecedor sem um só prêmio. Um dos melhores momentos da noite foi a música do cafetão ganhar o prêmio. Ah, Brokeback Mountain levou roteiro adaptado. Que ousadia, não?

P.S.: sabe Ang, eu ainda acho que você venceu.