![]() Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema! TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE 101 Dálmatas 5 X 2 2 Filhos de Francisco 21 Gramas Abaixo o Amor Abraço Partido Aconteceu Naquela Noite Acquaria Adeus Lenin! Adorável Julia Adversário, O Agente da Estação, O Água Negra A.I. - Inteligência Artificial Albergue Espanhol Aladdin Alexandre Alfie - O Sedutor Alice no País das Maravilhas Aliens of the Deep Alien Vs.Predador Amadeus Amizade Sem Fronteiras, Uma Amor, Sublime Amor Anaconda 2: A Caçada da Orquídea Sangrenta Anjo da Morte, O Anjo de Vidro Antes do Pôr-do-Sol Anti-Herói Americano Aristogatas, Os Asas Atlantis - O Reino Perdido A um Passo da Eternidade Avental de Lili, O Aviador, O Balada para Satã Bambi Batman Begins Be Cool Bela Adormecida Bela e a Fera, A Beleza Americana Ben-Hur Bernardo e Bianca Bicicletas de Belleville Blade: Trinity Bob Esponja - O Filme Bom Dia, Noite Bonequinha de Luxo Branca de Neve e os Sete Anões Bridget Jones: No Limite da Razão Brigada 49 Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças Broken Flowers Buena Vista Social Clube Busca da Terra-do-Nunca, Em Cabaret Cabra-Cega Caçados por Sonhos Caché Caixa de Pandora Caldeirão Mágico, O Cama de Gato Camelos Também Choram Canção para Bobby Long, Uma Capitão Sky e o Mundo de Amanhã Carmen Carros Carruagens de Fogo Casa de Aréia Casa de Aréia e Névoa Casa Vazia, A Castelo Animado Cazuza: O Tempo Não Para Cellular Chamas da Vingança Chamado 2, O Chinatown Chung Ko. Cina Cidade Baixa Cidade de Deus Cimarron Cinderela CineGibi Cinema, Aspirinas e Urubus Código 46 Collateral Cold Mountain Como Era Verde Meu Vale Como perder um Homem em 10 Dias Constantine Contato de Risco Contra a Parede Contra Todos Coração Valente Corcunda de NotreDame, O Crimes em Wonderland Cruzada Dama e o Vagabundo, A Dalimatógrafo Dandelion Dear Wendy De Corpo e Alma Delamu De-Lovely Destino Desventuras em Série Dia Depois de Amanhã, O Dia do Perdão Diários de Motocicleta Dinossauros Dogville Don´t Come Knocking Doze Homens e Outro Segredo Dumbo Educadores, Os Efeito Borboleta Election Elefante Elektra Em Boa Companhia Em Carne Viva Em Nome de Deus Encantadora de Baleias Encontros e Desencontros Encoraçado Potemkin, O Entrando numa Fria Maior Ainda Entreatos Entre Casais Entre Dois Amores ...E o Vento Levou Escola de Rock Espada era a Lei, A Espanta-Tubarões Esplanglês Esquecidos, Os Esses Homens Maravilhosos com suas Máquinas Voadoras Estranho Mundo de Jack, O Estranho no Ninho, Um Eterno Amor Eu, Robô Exorcista: O Início Expresso Polar, O Face Oculta da Lua, A Fahrenheit 9/11 Família da Noiva, A Família Rodante Fantasia Fantasia 2000 Fantasma da Ópera, O Fantástica Fábrica de Chocolate, A Feiticeira, A Filho de Chucky, O Fome de Viver Forrest Gump Galinho Chicken Little, O Gandhi Garfield Gigi Gladiador Golpe de Mestre, Um Goonies, Os Gosto de Sangue Grito, O Guerra dos Mundos (1953) Guerra dos Mundos (2005) Guia do Mochileiro das Galáxias Harry Potter e o Cálice de Fogo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban Heimat HellBoy Herbie: Meu Fusca Turbinado Hércules Herói Hitch - Conselheiro Amoroso Home at the End of the World Homem-Aranha 2 Horas, As Horror em AmityVille Hotel Rwanda Incríveis, Os Ilha, A Imagens Belas e Sujas Imperdoáveis, Os Interpréte, A Intrépidos Homens e suas Máquinas Maravilhosas Invasões Barbaras, As Irmãos Irmão Urso James Bond - Pte.1 James Bond - Pte.2 James e o Pessêgo Gigante Janela da Frente, A Jogador de Cartas Jogos Mortais Kedma Ken Park Kill Bill Vol.1 Kill Bill Vol.2 Kinsey Kramer Vs. Kramer Kung-Fusão Laços de Ternura Last Days Lawrence da Árabia Lenda do Tesouro Perdido, A Lenhador, O Life and Death of Peter Sellers Liga Extraordinária, A Lilo & Stitch Lost Zweig Luta Pela Esperança, A Luz é Para Todos, A Machuca Macunaíma Madagascar Madrugada dos Mortos Má Educação Mais Uma Vez Amor Malvada, A Manderlay Mansão Mal-Assombrada, A Man to Man Mar Aberto Mar Adentro Mar de Fogo Maria Cheia de Graça Matadores de Velhinhas Match Point Mate Seus Ídolos Melinda e Melinda Melodia na Broadway Menina de Ouro Menina Santa, A Mente Brilhante, Uma Mercador de Veneza, O Mestre dos Mares Meu Tio Matou um Cara Moça com Brinco de Pérola Mogli, O Menino Lobo Mondovino Monster - Desejo Assassino Monstros S.A. Moulin Rouge Mulan Mulher-Gato My Fair Lady Na Companhia do Medo Nem Que A Vaca Tussa Nem Tudo é o Que Parece Nenhum Lugar da África Nina Ninguém Pode Saber No Calor da Noite Noiva da Síria, A Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Notre Musique Nova Onda do Imperador Noviça Rebelde, A Old Boy Olga Oliver! Oliver e seus Companheiros Operação França Operário, O Or Osama Outra Face da Raiva, A Outro Lado da Rua, O Paixão de Cristo Palíndromos Papai Noel às Avessas Paradise Now Party Monster Passagem Azul Passagens Patton, Rebelde ou Herói? Peixe Grande Pequena Sereia, A Peões Perdidos na Noite Perto Demais Peter Pan (2003) Peter Pan (1953) Pinocchio Piratas do Caribe Planeta do Tesouro Platoon Pocahontas Poderoso Chefão, O Ponte do Rio Kwai, A Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera Procurando Nemo Procura-se um Homem que Goste de Cachorros Profecia dos Sapos, A Provocação Puff - O Ursinho Guloso Quanto Mais Quente Melhor Quarteto Fantástico Quase Dois Irmãos Queda, A Questão de Imagem Rain Man Ratinho Detetive, O Ray Rebecca - A Mulher Inesquescível Redentor Reencarnação Rei Arthur Rei Leão, O Resident Evil 2 Revelações Rios Vermelhos 2: Anjos do Apocalipse Robin Hood Robôs Rock, O Lutador Sahara Scooby-Doo 2: Monstros à solta Seabicuit - Alma de Herói Secretária Segredo de Vera Drake, O Segredos de Família Sem Novidades no Front Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Ser e Ter Sétimo Selo, O Shakespeare Apaixonado She Hate Me Shrek 2 Sideways Silêncio dos Inocentes, O Simplesmente Amor Sin City - A Cidade do Pecado Sindicato de Ladrões Sinfonia em Paris Spartan Sob o Domínio do Mal Sob a Névoa da Guerra Sob o Sol da Toscana Sobre Café e Cigarros Sobre Meninos e Lobos Sociedade de Jesus Sogra, A Sol Sonhadores, Os Sorriso de MonaLisa, O Soy Cuba Sr. e Sra. Smith Starsky & Hutch Star Wars: Ameaça Fantasma Star Wars: O Ataque dos Clones Star Wars: A Vingança dos Sith Star Wars: Uma Nova Esperança Star Wars: Império Contra-Ataca Star Wars: Retorno de Jedi Super Size Me - A Dieta do Palhaço Supremacia Bourne S.W.A.T Tarzan Team America - World Police Ten Teorema Terminal Terra da Fartura Terra dos Mortos Terra dos Sonhos THX 1138 Tickets Tiros em Columbine Titanic Toy Story Três Enterros de Melquiades Estrada, Os Três Vidas e um Destino Tróia Tron - Uma Odisséia Eletrônica Underworld: Anjos da Noite Último Imperador, O Último Samurai Um Tiro no Escuro Van Helsing Viagem do Coração Vida de Inseto Vida é um Milagre, A Vida Marinha com Steve Zissou Vila, A Volta ao Mundo em 80 Dias, A (2004) Vôo Noturno Voz do Coração, A Wayward Clouds, The Where the Truth Lies Whisky Wimbledon Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida Zaitochi |
2.12.06
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"Capítulo 1" Publicado em 06 de Março no "Dios Mio!" por Jayme Freire, Vitória - ES - Seu sofá não tem braços - disse Antônio - Isso é porque não é um sofá - respondeu o homem a sua frente - é um divã. - Hmmm... o divã... - É. - Igual o ex-zagueiro do Vasco? - Você gosta de futebol? - perguntou o homem pronto para fazer anotações. - Não, mas o Peu gosta. - Quem é "Peu"? - perguntou novamente, desta vez escrevendo algo aparentemente ilegível para qualquer ser humano. - Meu louva-deus. Num claro sinal de surpresa o homem parou de escrever, descruzou as pernas, olhou para Antônio ali, sentado no divã (e não no Odvan), voltou a cruzar as pernas, mordeu a tampa da caneta, descruzou as pernas e as cruzou novamente. Desde pequeno considerava o "cruzar de pernas" o ato mais interessante que já pudera presenciar, talvez culpa de seus pais, que eram tremendos fãs de "Instinto Selvagem". Mas, como se isso não importasse a ninguém (e de fato não importa), Antônio voltou a falar: - Sim, eu tenho um louva-deus. Inteligente à beça, se quer saber. - Você tem um louva-deus de estimação? - Não foi o que eu acabei de dizer? - Conte-me sobre ele, então. Como é o... - Peu - completou Antônio. - Ele é um tanto temperamental, pra falar a verdade. Não consegue admitir que perde uma partida de xadrez, vez ou outra. É esquerdista fervoroso e não admite que aos louva-deus o voto ainda não seja permitido. É ateu também. Disse que o dia em que eu provar a existência de Deus ele vira apóstolo, e que só não prova que não existe por querer poupar minha mente de revelações tão grandiosas... - Certo. Agora, me diga... - Mas eu disse a ele que é bem provável que exista. Tudo bem, sei que a igreja católica anda fodendo com todo mundo ultimamente, principalmente com a parcela da humanidade que possui menos de 10 anos de idade, mas isso não desmente nada... Sabe, às vezes desconfio que ele se diz ateu só para contradizer seu pai. Ele é rígido à beça, disse que nenhum filho louva-deus dele seria ateu... e... - Tudo bem, tudo bem. - apressou-se a interromper o psicanalista - Antônio, eu queria saber qual é a sua relação com as pessoas. - Depende, com que pessoas? Se for contigo eu diria que é muito cedo pra dizer. Só te conheço há alguns minutos... - Com todos à sua volta. Como você se relaciona com as pessoas de verdade? - Não muito bem... existem alguns problemas, pra falar a verdade. - Problemas com você? - Não, eu sou normal. São as pessoas que são abertas demais, contentes demais. Elas não me entendem. - E você as entende? - Não acabei de dizer qual o problema delas? Claro que entendo... - Certo... - Sabe, doutor... acho que você precisa de um pouco de atenção médica. Já procurou um psiquiatra? ![]()
"Capítulo 1 - Final" Publicado em 23 de Abril no "Dios Mio!" por Jayme Freire, Vitória - ES Antônio e Paula viveram crises de ciúme. E passaram por elas. Depois disso viveram um romance. Apenas para voltarem a viver crises de ciúme. E passarem por elas novamente. Passaram mais seis meses juntos. Conheceram-se, mudaram, transmutaram e transformaram. Paula quebrou o Santo Graal de Jonas e Antônio flagrou André em ocasiões embaraçosas. Perceberam que eram dois despedaçados, e quando todos os pedaços dos dois, sem faltar nenhum, se ajeitaram num mesmo espaço, e as duas bocas, enquanto separadas, murmuraram bobagens importantíssimas, e os dois pensamentos conheceram juntos lugares que não existem. Paula voltou a perguntar se Antônio temia a morte, e ele voltou a dizer que não. Ela voltou a perguntar o que ele vestia, e ele sempre respondia "jeans e camiseta". E ele apaixonava-se todos os dias, pela manhã, quando acordava e ela estava ao seu lado... babando, é claro. Já conheciam cada ruga, cada pinta, cada dobra e cada fio encravado. Porém, no ponto culminante de tal paixão, Paula planejou uma mudança. Resolveu estudar em outra cidade, bem longe daquela em que a paixão vivia. E quando contou a Antônio sua decisão, ele sugeriu que continuassem a visitar lugares inexistentes, mesmo à distância. - É, se fosse fácil assim... - disse ela - pra mim... - Não sei por que se é - respondeu ele - assim. - Mas é... Mas é... Sabiam que o conquistado se dissolveria. Sabiam que duas realidades numa só não resistiria a milhares de quilômetros. Por isso a separaram. Como se corta uma folha de papel ao meio. E até hoje Antônio jura ter sido esse o som que ouviu quando Paula entrou no carro. Papel sendo rasgado. E o que era um amontoado de pedaços juntos, voltou a se desmontar. Antônio voltou a formar suas teorias nefastas sobre a humanidade e a se afastar de tudo o que era vivo e vivia. Sabia que havia muita diferença entre ser vivo e viver. E fazia questão de traçar uma linha entre ambos os atos. Mas quando perguntavam por que ele vivia assim (ou apenas era vivo assim), ele não respondia. Mas dizia a si mesmo: "distância." ![]()
"O Ministério da Saúde adverte: não existem evidências de que este blog previna, trate ou cure doenças." Publicado em 19 de Novembro no "Circulando" por Cláudio Rúbio, São Paulo -SP
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"Pra viajar no cosmos não precisa gasolina" Publicado em 05 de Abril no "Pensar Enlouquece, Pense Nisso" por Alexandre Inagaki, São Paulo -SP
Marcos César Pontes, 46 anos, tornou-se o primeiro brasileiro a viajar literalmente para o espaço. Ao participar da tripulação que lançou a nave russa Soyuz TMA-8 ao espaço, fez do Brasil o 35º país a colocar um astronauta em órbita. Para que essa viagem ocorresse, o governo brasileiro pagou cerca de US$ 10 milhões aos russos, que gentilmente cederam um assento a Marcos na Soyuz por um precinho camarada (a título de comparação: o milionário Dennis Tito desembolsou US$ 20 milhões por sua viagem espacial, realizada em 2001), movidos por interesses comerciais que incluem a venda, ao Brasil, da tecnologia utilizada em motores de foguetes capazes de lançar satélites. Não discuto a necessidade dessa aquisição tecnológica, uma vez que o programa espacial brasileiro é, literalmente, um desastre (vide o acidente na Base de Alcântara no Maranhão que causou 21 mortes em 2003). Defeito colateral, no mais, gestado por anos de descaso com pesquisas científicas e tecnológicas, que fizeram com que nações que começaram seus programas espaciais na mesma época que o Brasil, como a Índia e a China, sejam atualmente capazes de produzir e lançar seus próprios foguetes e satélites (e de enviar homens ao espaço por conta própria, no caso dos chineses), enquanto ainda somos obrigados a recorrer a tecnologias de terceiros e alugar um assento numa nave espacial russa a fim de disfarçar o fracasso acachapante de um delírio intitulado "programa espacial tripulado brasileiro". Em meio a toda essa barafunda, é até compreensível ver tanta gente ridicularizando Marcos Pontes por realizar no espaço experimentos como plantar sementes de feijão em algodão (atire o primeiro meteoro quem nunca fez isso na escola primária). No entanto, vale a pena lembrar que ele é um dos mais experientes pilotos da FAB e passou por treinamentos na NASA desde agosto de 1998. E se ficou tanto tempo assim em treinamento, impute-se a culpa ao governo brasileiro que, na condição de parceiro de realização da primeira Estação Espacial Internacional, assumiu (sem cumprir) o compromisso de construir diversas peças, sendo que em troca Pontes seria enviado ao espaço sem nenhum custo adicional. Como até agora o Brasil não desenvolveu o incremento tecnológico necessário para a construção dessas peças, Pontes ficou a ver as estrelas de periscópio até que nosso governo decidisse custear uma carona com os russos. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, observa: "a associação do envio do astronauta brasileiro com o vôo do 14 Bis vai colocar em evidência que o Brasil, em cem anos, sofreu um grande atraso. Naquela época, fomos os primeiros a controlar a dirigibilidade dos balões e a levantar vôo com um veículo mais pesado que o ar, graças à iniciativa de Santos Dumont. No presente, o governo gasta US$ 10 milhões para colocarmos um astronauta no espaço ¿ sendo que mais de 30 países já o fizeram ¿, usando lançadores de outros países". Perguntar não ofende, respostas sim: vou me ufanar do quê? ![]()
"O bom, o mau... que feio!" Publicado em 06 de Março no "Filmes do Chico" por Chico Fireman, Salvador BA
Há cerca de um mês, quando Crash foi eleito como pior filme do ano pela Liga dos Blogues Cinematográficos, eu me senti orgulhoso. Fiquei orgulhoso de, além de mim, a maior parte dos meus colegas terem percebido como o filme de Paul Haggis é um embuste. O Alfred de pior filme tinha desmascarado o texto ruim de um filme que se vendia pelo quão revelador ele era, que se erguia pela denúncia da intolerância étnica e pela indignação com relação ao jogo de poder que manipula a América e o mundo. Um filme que se vendia. E para vender seu filme, o diretor de Crash, o autor de Crash jogou o mais baixo que pode: quis determinar que ninguém escapa do destino de pecar, de ser mau, de se corromper. A corrupção (não a monetária e sim a moral) é questão de tempo. Paul Haggis provavelmente acredita no que escreveu talvez por ser o caso dele. Os Estados Unidos são o país mais frágil do mundo. Haggis não teve grandes dificuldades de convencer este país de como sua história era importante. Cooptou astros diversos, de Matt Dillon a Brendan Fraser, de Don Cheadle a Sandra Bullock. Quando estreou, caiu nas graças da crítica, que enxergava no filme um exemplo corajoso de manifestação política. Este abraço a Crash somente ganhou força quando se descobriu que 2005 era um ano de contestação. Era um ano de projetos engajados, de ousadia, de posicionamento social. Um a um, caíram todos os grandes favoritos a filme do ano. Num ano em que George Clooney faz um maravilhoso libelo contra o macarthismo por que se importar com as memórias plastificadas de uma gueixa quase ocidental? Num ano em que Steven Spielberg acusa sua própria etnia de intolerância qual a relevância da história de Pocahontas? Num ano em que Ang Lee faz de um conto de amor entre dois homens uma história de amor universal seria preciso dezenas de macacos gigantes para chamarem mais atenção.
E foi este último, o tal do conto de amor, o filme que mais ousou. Ousou ao se aproveitar do que é mais formal para escrever a história mais bonita, o roteiro mais acertado, usar a câmera sem alarde. O Segredo de Brokeback Mountain ousou mostrar que não há diferenças. Foi tão bem sucedido que se pode achar dezenas de textos de homens que o defendem com paixão embora não façam a menor questão de viver ou ver algo semelhante ao que aparece na tela. Brokeback Mountain, como grande cinema que é, ultrapassou os limites da tela e cumpriu sua última função social na noite deste domingo, quando perdeu justamente para Crash o Oscar de melhor filme do ano. Foi este prêmio que escancarou o quanto ainda é insuportável ver dois homens se beijando mesmo num mundo tão moderno como o que vivemos. Na velharia que ainda domina a Academia, a corrida interior para eleger uma desculpa para não premiar o filme de Ang Lee terminou quando alguém decidiu que seria perfeito apontar o filme com maior "conteúdo social" como vencedor. Um disfarce primoroso. Esconder a homofobia - e com ela a estupidez de um grupo que já deu prêmio a Uma Mente Brilhante - por trás de posicionamento político. Que grande golpe! É realmente inacreditável perceber que a Academia não tem o menor pudor de ir contra a corrente generalizada, de parecer antiga, arcaica e burra apenas para não aceitar que um filme com temática gay pudesse ser o melhor do ano. Se George Clooney ou Steven Spielberg, ainda que eu ache seus belos trabalhos inferiores ao de Ang Lee, tivessem ganho, este texto não existiria. Seriam dois filmes honestos e, estes sim, importantes e ousados, premiados. Mas ver a aberração de Crash ganhar de um filme tão honestamente simples e imensamente superior como O Segredo de Brokeback Mountain é ter certeza de como tudo ainda continua tão errado. A festa Jon Stewart é excelente. O melhor apresentador de todos os Oscars que eu vi. Os resultados foram, de uma maneira geral, bastante previsíveis. Mais do que nunca, eu diria. Foi ruim ver a fotografia esquizofrênica de Memórias de uma Gueixa vencer, mas foi bonito assistir à belíssima trilha de Brokeback Mountain ser premiada. Os prêmios de direção de arte e figurinos não eram suficientes? E mesmo que eu prefira David Strathairn e Heath Ledger, Philip Seymour Hoffman mereceu seu prêmio. O mesmo pode ser dito de Reese Whitterspoon, num ano fraco para atrizes. George Clooney estava muito bem em Syriana, e Rachel Weisz, encantadora, em O Jardineiro Fiel. Os pecados vieram quando a os homens-bomba da Palestina perderam o Oscar para as criancinhas sul-africanas ou a montagem e o roteiro de Crash foram eleitos. E Nárnia, com seu trabalho meia-boca tirar a maquiagem de Star Wars também foi ruim. King Kong ganhou todos os técnicos deixando Guerra dos Mundos, igualmente merecedor sem um só prêmio. Um dos melhores momentos da noite foi a música do cafetão ganhar o prêmio. Ah, Brokeback Mountain levou roteiro adaptado. Que ousadia, não? P.S.: sabe Ang, eu ainda acho que você venceu. |